Como Vivemos e para Onde Vamos.
Que o feminismo mais radical dos anos 60 implicou em conquistas fundamentais, não se pode negar. Que a partir dele ganhou-se, como nunca, a vida pública, não podemos negar, também. O que importava, naquele contexto, era a conquista da esfera pública, de um modo como nunca aconteceu entre as mulheres. Antes de suas reivindicações, às mulheres restava “apenas” (?) a vida doméstica, o mundo privado, com suas limitações, relações de poder e violências (das quais as mulheres eram e são vítimas e algozes). Estávamos imersas em oposições como aquelas encontradas entre perspectivas históricas masculinas e femininas, públicas e privadas, relativas às instituições formais e às práticas cotidianas, advindas das relações de poder e das relações de submissão.
O feminismo fez com que o olhar do mundo se deslocasse da “rua”, do “trabalho” para a “casa”, o “casamento”, a “criação dos filhos”, o “consumo de bens”, de modo a rejeitá-los e a negá-los. Criar filhos, assumir a maternidade como centralidade da vida, enfatizar o trabalho doméstico, a sexualidade do casamento, tudo isso nunca foi tão destituído de status como entre as feministas em suas origens contemporâneas. Como proposta colocavam-se as reivindicações por liberdades sexuais, sociais e políticas, ora enfatizando uma dessas esferas, ora outra, ora todas elas.
Mas os modos como de fato vivemos não reflete todo o arcabouço conceitual criado pelo feminismo. Acredito que suas discussões clássicas não têm dado conta da nossa vida. Em recente discussão, uma das principais críticas do feminismo, Camille Paglia, enfatiza essas limitações. O que houve, segundo ela, foi uma desvalorização tão forte da vida doméstica e da maternidade, que gerou uma separação entre o feminismo e as práticas femininas cotidianas.
O que buscamos, hoje, é uma conciliação. Procuramos juntar, de forma prática, vida pública e privada, status e prazer, liberdade e múltiplas obrigações. Essa busca pela conciliação pode ser vista tanto na esfera individual – basta pensar como a leitora deste blog vive – quanto na esfera coletiva, esta última manifesta por todo um conjunto de legislações sobre o trabalho e a vida feminina e as leituras teóricas sobre o feminismo e a prática feminina.
Mas a conciliação é impossível. Vivemos entre reuniões de trabalho, aspectos econômicos e culturais da vida, consumo de arte e dúvidas sobre a amamentação, alimentação de bebês e viroses freqüentes, sem estar de fato imersas em nenhuma dessas questões. Com isto não quero dizer, de forma simplista, que “quem tudo quer nada tem”. Prefiro pensar que não é a conciliação – impossível como disse – o que nos interessa. O que de fato nos importa, o que de fato nos trouxe ganhos é a busca por ela. De um meio para o alcance da vida plena, a busca pela conciliação torna-se um fim em si mesma. Não buscar pela conciliação – ainda que impossível – entre os dois grandes planos da vida – o público e o privado – pode gerar imobilismo, inércia. O que de fato queremos é sermos mães, trabalhadoras, consumidoras, donas de casa, esposas, sem que sejamos definidas exclusivamente por nenhum desses papéis.
Karina Rabelo L. Marinho






